Domingo, 22 de Agosto de 2004

Uma Morte Insignificante

Nunca soube o seu nome, mas toda a gente lá no bairro lhe chamava a Maria dos Azares, por isso também eu a me referia a ela com esse nome quando falava com alguém. Creio que esse epíteto se devia ao seu cheiro e ao andar sempre rodeada de gatos, estranhamente, quase todos pretos.
Era uma figura incomum, vivia por debaixo de umas arcadas junto às traseiras de uma loja de electrodomésticos e de um supermercado. A proximidade com os caixotes do lixo tornavam mais próxima e fácil a procura de restos, e o vento quente expelido pelo sistema de ar condicionado do supermercado, ajudavam a aquecê-la no inverno.
Também era combativa, lutava, barafustava e esbracejava para afugentar quem quer que tentasse aproximar-se do seu canto. Os seus dias eram sempre iguais, acordava tarde, perto da hora do almoço e emborcava de imediato os restos de uma qualquer garrafa de alcool que tivesse junto a si. Depois levantava-se, praguejando em surdina e ia para um local não muito afastado pedir esmola, insultando quem não lhe retribuia. Com o dinheiro resultante do peditório comprava pacotes de vinho que bebia em dois ou três instantes.

Pouco mais sabia da sua vida, só sabia que sempre estivera ali. Desde que me lembro de ser gente que ela ali estivera, com o seu insulto grunhido, o fedor característico e os gatos, muitos.
Das traseiras da minha casa podia-se avistar de longe o local onde dormia, mas eu raramente o fazia, não era propriamente uma vista que eu prezasse ou apreciasse.

Porém, na noite passada, o ir e vir de uma luz azul e um ruído maior que o normal acordaram-me e fizeram-me dirigir à janela para ver o que se passava. No local onde a Maria dormia, estava uma ambulância, um carro de polícia e muita gente. Fiquei curioso e desci para saber o que se passava.
- O que é que aconteceu – Perguntei a um dos polícias de serviço.
- Foi uma vagabunda, que morreu, mas os gatos não nos deixavam aproximar dela, eriçavam-se todos, e o cheiro...., parecia já estar morta há pelo menos umas 10 horas. – Respondeu-me – Também tivémos que mandar chamar a Câmara para virem buscar os bichos...
Agradeci a informação e dirigi-me à ambulância da Medicina Legal e vi o seu corpo carregado por três homens a ser colocado dentro do veículo. Quando a porta se fechou dirigi-me a casa e fechei-me no quarto, com o pensamento «que morte tão insignificante para a nossa sociedade, mas que perda tão importante para aqueles bichos...».
No dia seguinte o tema no bairro era sempre o mesmo onde quer que fosse, a morte da Maria dos Azares. Alguns com pena, outros aliviados, pela imagem que dava ao bairro, mas ninguém indiferente. Eu senti-me sobretudo triste, por nunca ter sabido quem ela era. E este pensamento levou-me a pensar que afinal a sua morte não foi insignificante. Na morte, a Maria conseguiu que meio mundo se lembrasse dela.

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