Sexta-feira, 20 de Agosto de 2004

O Velho na montra

A montra estava completamente vestida de sapatos. Pendiam da janela, das prateleiras de madeira velha e enchiam de ambos os lados a entrada da loja, quase impedindo a entrada de clientes. Imediatamente por trás da montra, um velho estava sentado. O seu nariz redondo e abatatado quase tocava no vidro. Por detrás do vidro, quase opaco com a sujidade ele observava. Observava a rua que por acaso eu descia.
Dirigia-me para um encontro com uma pessoa amiga, e estava feliz por isso. Tinha comprado o jornal, e lia enquanto descia a rua. Uma sucessão de eventos trágicos mas desinteressantes desenrrolava-se nas suas folhas, por isso facilmente desviei a minha atenção. A estranha fachada de sapatos daquela montra puxava o meu olhar. Quando dei por mim, estava parado, junto a essa montra, a escassos passos da vincada cara do velho por detrás do vidro. Piscou ambos os olhos, e o seu olhar curioso numa cara inexpressivamente triste confundiu-me, enervando-me. Imediatamente desviei o meu olhar, observando os sapatos e a desordenada forma como estavam amontoados.
Eram de vários estilos e condições, uns novos, outros velhos, a maior parte parecia ter já sido usada. Estranhamente, nenhum tinha preço afixado, não pareciam estar para venda. O meu pensamento foi interrompido por um tossir grave que fez desviar o meu olhar na sua direcção. Fixou-me intensamente, sem demonstrar ira, nem nenhuma outra emoção, só uma calma curiosidade.
Voltei o meu olhar para os sapatos, apesar da minha atenção estar concentrada na estranha criatura por detrás da sujidade do vidro. Apesar do desconforto que sentia, entrei na loja, cumprimentei-o, recebendo em troca uma espécie de grunhido do qual só percebi a palavra «...dia». Inclinei-me para agarrar um dos sapatos numa das prateleiras mais baixas e, o seu olhar seguia os meus movimentos. Este exemplar estava gasto, faltava-lhe metade de um atacador e uma meia-sola. Perguntei-me a mim mesmo, quem alguma vez compraria algo semelhante, talvez ninguém, talvez o tivesse usado o próprio velho. Abanou a cabeça, como que a dizer que aquele modelo não me servia, e eu devolvi-o à prateleira, como que a tentar não incomodar. O seu olhar continuava a seguir-me como que a analizar o absurdo que eu iria tentar na próxima escolha. Sentia-me curioso, mas incomodado. Saí, e enquanto saía, o seu olhar uma vez mais prescrutou o meu, quase me congelando. Lembrei-me do encontro marcado para o qual estava quase a ficar atrasado, mas ainda olhei para trás, para ver tão estranha figura uma vez mais. A minha surpresa foi total, ao observar que o velho sorria e que me fazia continência. Não percebi o porquê deste gesto, nunca fui militar, mas também sorri, sorri por dentro e senti-me inexplicável e estranhamente bem.


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