Sexta-feira, 20 de Agosto de 2004

Má Noite

Cheguei ao Rossio e lá estava ele, alto, marcado pelos anos e com um chapéu grande, pesado de velho. O chapéu, roto de tanto uso cobria-lhe grande parte da cara. Por debaixo do chapéu, esperava… prescrutava silenciosamente, de cima a baixo, todos os passageiros que podia. Por um momento perdi o contacto com ele, uma trintona produzida obrigara-me a desviar o olhar para o seu decote. Será que ele a viu também? Não cheguei a perceber, o meu comboio chegou antes que me conseguisse aperceber e por isso parti.
Aquela figura estranha marcou-me, e fui o resto do caminho a pensar nele.
Uma semana depois, no mercado de Sintra, vi-o outra vez, sisudo e parado, com o chapéu velho a cobrir-lhe a cara e uma vez mais uma mulher estranhamente bela a passar fez com que perdesse o seu contacto visual. Não mais o vi nesse dia, mas desta vez no caminho para casa. Ruminei mais e mais no assunto. Quem seria o indivíduo?, parecia-me familiar, porém podia jurar que nunca o tinha visto antes.

Nessa noite, um bater na porta da rua soou, eram já duas da manhã. Era um bater profundo e persistente. Cambaleei no meu sono, tentando navegar às escuras pela mobília sem a partir. Ao abrir a porta deparei-me com um homem, alto, na casa dos sessenta e com um aspecto perfeitamente normal e estranhamente familiar.Numa mão segurava o chapéu roto, a outra estava levantada como para me cumprimentar. Ao ver que não lhe correspondia, juntou-a à outra, no chapéu, começando a rodopiá-lo lentamente.

- Desculpe lá, você sabe que horas são?, já viu o tarde que é? –Perguntei
- Não peço desculpa pela hora, peço no entanto desculpa pelo que me traz aqui. – retorquiu.

E colocou a mão direita firmemente no meu peito, empurrando-me pelo corredor à sua frente. O seu olhar calmo impediu-me de esboçar qualquer reacção a esta afronta. Atirou o seu chapéu para o cadeirão e começou a pesquisar os meus pertences. Lentamente e com todo o cuidado, pesquisava atentamente coisas comuns e depois repunha-as com todo o cuidado, sem que eu dissesse nada. De cada vez que a minha garganta tentava emitir um som, ele olhava para mim e eu perdia completamente as palavras que me permitiam confrontar este estranho.
Deteve-se numa foto antiga, do dia em que eu nasci, nela estou eu, nu e choroso, e os meus pais junto a mim. O meu pai estava estranhamente sério na foto. Parecia alguém grave e de poucos amigos. Felizmente não me lembro dele.
Com a foto nas mãos, deu uns passos breves pelo corredor e sacou de um lápis de um dos seus bolsos, começando a escrever na foto. Assim que o fez, apanhou o seu chapéu e partiu, fechando a porta atrás de si, sem ruído.
Enquanto se ia, permaneci sentado, sem um esgar. Adormeci no sofá.
Deviam ser umas 10 da manhã quando o telefone soou e ouvi a minha chefe a perguntar-me porque não tinha ido trabalhar. Só aí me dera conta que tinha adormecido no sofá da sala. Pedi desculpa, disse estar com dor de cabeça e felizmente consegui ficar com mais um tempo de manobra que aproveitei para me lavar e tomar o pequeno-almoço. Enquanto comia, lembrei-me da noite anterior e, corri para ver o que tinha o estranho escrito na foto. Com a pressa tropecei num tapete, e caí com estrondo no chão do corredor, sobre o braço direito. A dor era lancinante, mas mesmo assim consegui arrasytar-me até à malfadada foto na mesinha da sala, e foi então que li o que o estranho escrevera.
Ao lado da cabeça do meu pai, as seguintes palavras diziam «Este sou eu...».

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