Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

Bater bem no fundo… lá longe...

Quando pensava que tinha chegado ao fundo, lá bem em baixo, dei por mim a descer ainda mais. «Vocês mereceram o massacre de Tiananmen» gritei irritado para ninguém em particular, na apinhada carruagem de comboio, enquanto nos arrastávamos por mais de 2000 kms entre Kunming e Chengdu. «Por amor de deus, podem parar de fumar, cuspir e olhar para mim?», mas ninguém me entende, mesmo expressando-me em inglês.

Os passageiros que não estão a ressonar ou a dormitar, entretêm-se a olhar esgazeados para o estrangeiro. Um homem pequeno, vestido num fato cinza ao estilo Mao, levantou o seu filho ao colo para ele poder ver melhor o «nariz grande». Eu até nem sou alto para europeu, mas sentia-me estranhamente gigantesco naquela zona. Talvez fosse por estar habituado ao olhar para cima e agora estar a olhar ligeiramente para baixo, quando olhava nos olhos das pessoas, mas sobretudo por ter o cabelo louro claro. Entalado no banco do comboio, bastava assoar-me, remexer na minha mochila, ajeitar a correia da máquina fotográfica ou tentar escrever no meu diário de viagem, para tornar-me o centro das atenções. Acho mesmo que bastava respirar para ser o centro das atenções.
Parecia até que tinham vindo chineses de outras carruagens para de soslaio olharem para os meus olhos azuis e cabelo claro. «Nunca viram um cabelo de palha meio careca antes?» perguntei com frustração, nunca obtinha resposta, só olhares e mais nada.

Qualquer objecto que retirasse ou no qual mexesse dentro ou fora da minha mochila, tornava-se imediatamente objecto de especulação e admiração. Muitos aaahhs e ooohhhs ouvi por causa de coisas para mim perfeitamente banais. Assim que apanhava a minha caneta, um grupo materializava-se à minha frente para observar este estranho com esta escrita e objecto de escrita estranhos, surpreendentemente com a mão esquerda. Eu era o Homem-Elefante aprisionado, o único entertenimento durante esta viagem de 26 horas para lugar nenhum.

Às 6 da manhã, a promessa da luz do dia reafirmou o meu medo de que não tinha dormido toda a noite. Rapidamente, as luzes fluorescentes ligaram-se, a jovem no beliche em frente saltou com força para o chão da carruagem e os primeiros Marlboros acenderam-se.


Para libertar a minha mente deste aprisionamento, olhei pela janela lamaçenta. Metade do tempo, tudo o que conseguia vislumbrar era o reflexo de um homem com a barba por fazer com enormes papos sob os olhos – eu não era o que se pode chamar um campista feliz. Temi tornarme uma espécie de monstro, e pense que de facto não tinha estofo para aquilo, era demasiado picuinhas e tinha demasiados medos, sobretudo do desconhecido.

Quando emergimos uma vez mais de uma das várias centenas de túneis que separam estas regiões, consegui vislumbrar fragmentos de terrenos lavrados em socalcos largos cheios de água, que desciam a montanha, pequenas aldeias de casas de madeira e estações de comboio onde um solitário responsável de estação permanecia em pé, segurando uma bandeira verde, enquanto arrepiávamos caminho. Era como uma dessas fotos que tantas vezes tinha visto em revistas, mas ao vivo.

Para acordar passageiros dorminhocos, os altifalantes da carruagem começavam a vomitar pop chinês, que eram como piercings a penetrar os meus ouvidos. Ouvia-se desde música desconhecida até misturas de classica, versões de sucessos americanos dos ídolos Pop etc. Enquanto íamos passando através dos túneis em direcção à luz os olhos doíam, por vezes quando o sol nos aparecia de repente ou quando um reflexo de um campo de arroz alagado nos atingia.
Aos poucos a paisagem passou do bucólico para o industrial, massivas construções, minas de carvão a céu aberto, siderurgias. Depois, de novo o bucólico, uma cascata, uma pequena jangada. Por vezes, montanhas erguiam-se dos dois lados do comboio, outras vezes, acentuados declives afastavam-se das carruagens.
A minha viagem tem sido assim. Por vezes sinto que estou no topo do mundo, mais alto que os milhares de metros que já escalei. Outras vezes penso que me afundei num novo e mais profundo nível. Quando isto me acontece deixo de ser o jovem pacato e cordato para me tornar um selvagem, indiferente e intolerante, mas acho que o medo do desconhecido me torna assim. Um grupo de olheiros junta-se, todos a fumar e eu faço-lhes um gesto para que desapareçam da minha frente, mas sem efeito. O meu dicionário de Mandarim-Inglês não contém a expressão «espero que morram todos de cancro!»

Esta viagem tem sido estafante, lembro-me de ter como motivo a tentativa de encontrar vestígios da portugalidade na china profunda. Tinha lido algo sobre isso numa revista em Portugal e, como já tinha vontade de conhecer esta parte do globo, usei essa desculpa. Nestes últimos dias tenho tentado procurar por alguém que saiba algo sobre o Frei António de Jesus, que se sabe ter vivido nesta parte da China entre 1810 e 1835. Porém, as pequenas distâncias no meu mapa demoram dias a percorrer, seja qual for o meio de transporte. Tenho saudades das colinas de Lisboa e da familiaridade de Alvalade, onde conheço quase tudo e todos.

Um homem que conhecera no comboio há uns dias, possivelmente a única pessoa que consegue articular algum inglês inteligível, diz «Ni hau» enquanto me oferece uma chávena de chá verde. É um acupuncturista, e tem como destino Chengdu, vai participar num seminário. Convida-me a juntar-me a ele para um pequeno-almoço constituido por uma espécie de sopa de esparguete, no seu camarote. E, talvez se eu estivesse interessado, também alguma acupunctura para me pôr a dormir. «Vai doer muito pouco» garantiu-me. «Mas vais ter lindos sonhos.» Aceitei e sentei-me. Observei enquanto desembrulhava os utensílios. Coloquei-me deitado, como me ditava o meu novo companheiro de viagem e senti uma pequena picada por detrás do lóbulo direito. Foi como uma dor que não doía e, de repente uma sensação de calma começou a invadir-me, comecei a fundir-me com o banco sujo de napa da carruagem. Tornei-me eu próprio uma parte deste comboio que tal como eu vagueia em direcção a um destino incerto. Lentamente adormeci.

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