Quarta-feira, 11 de Agosto de 2004

Um Lugar ao Sol

“Tens cinco minutos”, rosnou Julia, enquanto me dirigia à cama, onde estendido em coma, estava o meu amigo de duas décadas, pairando entre a vida como um vegetal e uma morte talvez mais complacente mas, para mim incomparavelmente mais dolorosa.

Ela disparou-me um olhar que sugeria que ainda não tinha perdoado a minha longa lista de abusos e indiscrições, e antes que tivesse tempo de ver que a sua barriga estava protuberante contendo o filho dele, saiu da unidade de cuidados intensivos. Fiquei ali abandonado com uma caixa de Mon Chéri que sabia que o Ricardo nunca mais iria provar, sem saber o que fazer.

O irritante «ping» da máquina que monitorizava a viagem do Ricardo no limbo, quebrava o silêncio numa cadência certa e angustiante. Com todos os fios e maquinaria que o envolviam e que a ele estavam ligados e que o ligavam à vida, parecia mais que estava a ser de novo refeito e que iria ser de novo montado e actualizado do que a ser mantido vivo. Por momentos desejei que estivesse a ser transformado numa espécie de super herói ciborgue, em vez de um vegetal com sangue em vez de seiva.

«Pareces muito mais calmo do que quando saíste de minha casa no Sábado à noite,» disse eu, lembrando-me da última vez que tinha visto o Ricardo sorrir. Foi imediatamente depois de radiantemente me ter dito que iria ser pai e que ficara noivo da Julia, e imediatamente antes de ter entrado para o seu Audi A4 cinza. Sorri momentaneamente, mas o meu sorriso foi depressa arrancado pelo ar duro da enfermeira de serviço, que entrara naquele momento e se estacionara junto de uma criança, vítima também de acidente rodoviário, na cama ao lado, tacteando aparelhos como um cientista aeronáutico procurando sinais de vida no espaço.

Eu também procuro sinais de vida no homem com respiração difícil que está deitado na cama sete, que parece ter ganho a sabedoria e a serenidade de que estava à procura desde que o conheci no Liceu Rainha Dona Leonor, ali em Alvalade, tinhamos os dois 12 anos. Isto foi em 1985, quando ainda havia estações e as férias grandes duravam quase quatro meses, quando cada dia era uma aventura e uma ida sozinhos à Costa da Caparica para apanhar umas ondas era tudo o que sabíamos sobre o paraíso.

Dirigi-me para o outro lado da cama e lentamente puxei a pálida cortina verde pela calha para separar-nos, escudando-nos da enfermeira Lizete, e puxei a cadeira para cima para poder agarrar a mão inchada e flácida do Ricardo, a que não tinha tubos agarrados.

Como poderia ele estar tão descansado e relaxado com o permanente cheiro a cebolas e éter, o típico cheiro de hospitais. Logo ele que nunca gostara nem de cebolas nem de hospitais.

Tossi levemente para desatar o nó que tinha na minha garganta e balbuciei: «Ricky, é o Rodrigo. Então pá?!», como esperava, não houve resposta, mas insisti. «lembras-te de mim?, lembras-te das ondas da Costa? E das idas à xinxada nas vivendas do Restelo?, lembras-te das ameixas amargas que tinhamos de comer, porque quem não conseguisse era maricas? E das férias na Ericeira com os teus pais em que conheceste aquela inglesa que te tirou os três?, lembras-te? Então pá, lembras-te?»

Nada, e uma e outra vez nada, ele está completamente absorto, num imóvel esquecimento. Mas eu insisto e persisto «então pá, lembras-te quando depois dos escuteiros íamos atrás da igreja fumar charros?, e de irmos espreitar as miudas das Guias a jogar ping-pong? Lembras-te que tinhas uma grande pancada pela Rita Salles? Lembras-te que só querias ver o longo cabelo loiro dela a balançar, enquanto ela jogava? Porque é que não casaste com ela Ricky? Ela haveria de ser muito melhor para ti do que…» Olho rapidamente à minha volta para ver se por acaso a Dama Ofendida não estará por ali perto. «Não sei como aguentaste oito anos com ela. Sabes que se saires daqui vais estar em maus lençóis, ela é uma cliente muito insatisfeita.»

Observo o lento subir e descer do seu peito. «Então companheiro, passámos por tanto juntos e tu agora estás assim?»
Esperei que abrisse os olhos, mas nada. «Lembro-me que começavas sempre a espirrar no fim da Primavera e que fomos expulsos da mercearia do Sr. Lopes por roubarmos gomas e estarmos a escolher só as vermelhas. Sabes que agora já não existe? Agora é um lar de idosos, passei lá no outro dia. Já lá não ia há montes de tempo, normalmente vou pela via rápida, agora que tenho ligação directa. Imagina, Miraflores – Alvalade em dez minutos, sem problemas. O Lopes já dever ter o quê, uns 80, 90 anos?, provavelmente já morreu.» Neste momento faço uma pausa e percebo que não devo estar a divagar sobre a morte.

Gostava que o Ricardo me estivesse a ouvir. «Vá lá pá, ajuda-me. Tu és a minha ligação com o passado,sem ti as minhas memórias estão-se a desvanecer como um papel de fax deixado ao Sol.»

Começo a sentir-me como um cordeiro enviado para abate, prestes a ter a minha garganta cortada e o corpo separado em partes segundo grau de comestibilidade. «Não me podes fazer isto. Nós fomos amigos durante 20 anos, crescemos juntos, embebedámo-nos juntos rimos juntos, chorámos juntos.»

Gostava de lhe ter dito no Sábado passado que não nos deviamos ter embebedado juntos, mas não o faço, em vez disso faço um fast-forward pelos eventos na minha mente – O Ricardo a descobrir que a Julia estava grávida. O Ricardo a propôr-se-lhe. O Ricardo a dizer-me o sucedido, o seu melhor amigo, e a tomar uma ou duas cervejas. O Ricardo a sair contrariando o meu conselho de que apanhasse um taxi. «Nah!, tá tudo bem, eu evito as estradas principais, vou por dentro e apanho a Marginal, a esta hora a polícia não anda lá, só a partir da uma, quando a malta da noite começa a sair.» Brilhantes últimas palavras. Boas para um epitáfio.

No entanto ele estava certo. Não havia polícia nas redondezas, e haveria de ter conseguido chegar a casa sem problemas se não tivesse apanhado mal aquela última curva na rotunda perto da Carris. O Audi foi embater com estrondo contra um velho e grosso choupo. Demoraram cerca de duas horas a desencarcerá-lo.

«Vá lá Ricardo, dá-me um sinal, não me morras. Eu sei que ela não gosta de mim, mas eu vou ser porreiro para ela. A sério que vou tentar. Pára com esse sono. Acorda, foda-se!.»

Sou interrompido por um pequeno e educado tossir por trás de mim. «Rodrigo?». Volto-me e vejo a Dama Arrependida atrás de mim, os seus olhos inchados de tanto chorar mal deixam ver a sua cor azul. «Os teus cinco minutos acabaram!.»

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